É possível viver de renda com 500 mil reais?

Ser rentista, ou seja, viver apenas dos rendimentos dos seus investimentos, é o sonho de muita gente. É o que se chama de independência financeira. Alcançar este objetivo significa não depender do trabalho para viver, e poder optar por um outro projeto de vida: dedicar-se a uma causa social, viajar pelo mundo, estudar em tempo integral, mudar de carreira, ou simplesmente se aposentar, pois o futuro estaria garantido pelos recursos acumulados ao longo da vida e seus frutos financeiros.

 

A primeira pergunta que eu ouço de pessoas que querem chegar lá é “quanto preciso ter para me aposentar?” Em seguida, vem o primeiríssimo requisito: “quero ganhar X por mês, sem que meu dinheiro acabe”.

 

Tudo começa por um plano. E por mais que a gente planeje tudo nos mínimos detalhes, este é um plano para décadas à frente, e sempre haverão surpresas ou mudanças de rota. É provável que o seu valor ideal de aposentadoria se torne maior ao longo do tempo. Você certamente vai querer que cada elevação de padrão de vida alcançada seja perpétua, portanto se reflita na expectativa de aposentadoria. Mesmo assim, não é fácil manter o padrão depois da inatividade. O primeiro passo é montar um orçamento, que seja realista e reflita o padrão de vida desejado de forma confortável.

Para isso, há uma série de perguntas a serem respondidas. Na aposentadoria, é melhor manter um imóvel próprio ou morar de aluguel? Ao decidir morar em um imóvel próprio, parte do recurso estará imobilizado e não renderá frutos, mas evitará o pagamento de mais um compromisso mensal. Mesmo que o aluguel seja visto como uma desvantagem, a conta é muito mais complexa. Porque qualquer imóvel, ao longo de 30 anos, por exemplo, deprecia em valor, demanda manutenção e melhorias, pode haver deterioração de estruturas e do bairro em que se vive, ou o condomínio pode aumentar demasiadamente. Também pode ocorrer o contrário: a área escolhida se valorizar e o imóvel ficar muito mais caro, e mesmo durante a aposentadoria o rentista pode decidir vendê-lo e colher a valorização. O aluguel é um incômodo para muitas pessoas, mas permite uma mudança de imóvel (e de custo) com mais facilidade, e não imobiliza o recurso financeiro.

É preciso projetar também os gastos com planos de saúde – mais caros para pessoas mais idosas -, remédios, alimentação especial, e por que não, cuidadores e acompanhantes de idosos. Uma casa de repouso também pode ser uma opção, mas tudo precisa ser precificado. É necessário também lembrar dos parentes. Filhos, netos, sobrinhos, irmãos, pais ou alguém que eventualmente precise ser amparado financeiramente. O cônjuge também entra na conta. Por isso, é importante verificar qual seria o valor de sua aposentadoria, se houver, a pensão que um deixará ao outro, eventualmente, e também seguros de vida que possam ser contratados.

Após chegarmos a um número ideal de salário de aposentadoria, será preciso realizar o cálculo financeiro do valor necessário para gerar resultado suficiente, que suporte a retirada mensal e permita a correção do saldo restante pela inflação, no mínimo.

Para que haja retiradas mensais perpétuas, só existem duas alternativas. A primeira: entregar o patrimônio ou parte dele, na forma de previdência privada, a uma seguradora, que através de um cálculo atuarial, determinará um valor mensal vitalício corrigido por determinado índice de inflação. E nesse cálculo a seguradora considerará tanto o principal quanto os juros futuros, dentro de uma meta atuarial de rentabilidade e de uma tábua de expectativa de vida, para que o valor do salário seja justo considerando todas as variáveis (e também preservando o lucro da seguradora, que fica com o risco). Na sucessão, não haverá saldo residual, e nenhum valor referente ao plano de previdência convertido em renda será herdado.

 

A renda obtida pela conversão do saldo de um plano de previdência privada é indicada para pessoas que não querem, ou não sabem como conduzir uma carteira de investimentos, e preferem transferir o risco para a seguradora, ficando de certa forma garantidos quanto ao recebimento de um salário mensal para toda a vida.

 

A segunda alternativa é gerir o próprio investimento, programando as retiradas para que o resultado financeiro líquido seja superior à inflação do período. Sendo assim, e considerando um determinado índice de inflação como base de cálculo – geralmente o IPCA -, é no excedente de rentabilidade em relação ao índice, ou seja, no juro real, que está o espaço para retiradas que preservam o valor do capital ao longo do tempo, inclusive permitindo que o valor do salário de aposentadoria seja corrigido durante todo o período.

 

Se o cálculo for bem feito, e as retiradas forem disciplinadas, o capital inicial, corrigido pela inflação, estará preservado para os herdeiros, se essa for a sua vontade. Diferentemente do plano de previdência, desta forma haverá herança em valor financeiro.

 

No Brasil, o juro real é historicamente alto, mas nos últimos tempos está abaixo da média, que é de cerca de 5% a 5,5% ao ano, acima do IPCA. Há poucos anos, quando a meta SELIC estava a 14,25% a.a. e o IPCA ao redor de 10% a.a, tínhamos juros reais ainda baixos para a média, mesmo com uma taxa básica de dois dígitos. Portanto, não adianta ter juros altos, se a inflação também for alta, o que importa é o juro real.

No último relatório FOCUS divulgado em 06/05/2019, o IPCA projetado para 2019 é de 4,04% (mediana). Para 2020, de 4%. A meta SELIC para o final de 2019, projetada pelo FOCUS, é de 6,50% (consideraremos TMS – Taxa Média Selic efetiva de 6,40%). Para final de 2020, a meta SELIC projetada é de 7,50% (consideraremos TMS de 6,90% em 2020, apenas para fins de cálculo). Sendo assim, o juro real projetado pelo FOCUS é de apenas 2,27% em 2019 (1,064/1,0404=1,02268) e de 2,79% em 2022 (1,069/1,04=1,02788).

É pouco, mas ainda tem um agravante: o Imposto de Renda, definitivo e na fonte, é cobrado sobre todo o rendimento, não somente sobre o cupom de juros, mas também sobre o IPCA. Suponhamos um título NTN-B com cupom de 2,74% a.a. (a taxa atual da NTN-B Agosto/2020, conforme Anbima em 03/05/2019) mais IPCA de 4% no período de um ano. Considerando constante o valor do cupom, a taxa efetiva seria de 6,85% (1,0274*1,04=1,068496). Se a alíquota de Imposto de Renda for de 15%, a taxa líquida de impostos é de 5,82% ao ano. Contra um IPCA de 4,04%, temos um juros real livre de impostos de míseros 1,71% ao ano. Isso sem considerar eventuais taxas: até o Tesouro Direto tem uma taxa mínima de 0,25% por cada 12 meses, cobrada pelo custodiante no ato da aplicação, mesmo que a corretora ou banco, de sua parte, não cobre nada.

 

Dessa forma, já podemos responder à pergunta inicial. Dá pra viver de renda, nas condições atuais, com o capital de 500 mil reais, retirando-se apenas 1,71% ao ano, o que significa 712,5 reais líquidos, sem 13º salário. Se você quiser viver com 1425 reais, precisará juntar 1 milhão de reais. Neste caso, baseando-se na taxa de uma NTN-B de curto prazo, vencendo em Agosto de 2020.

 

Nenhum imprevisto poderá ocorrer caso você retire todo o juro real líquido, já que o capital, ou o principal, será corrigido pelo IPCA, nem mais nem menos. Qualquer retirada extra implicará em redução das retiradas futuras, prejudicando a perpetuidade do plano.

Se a essa altura você está se perguntando por quê aplicar apenas em títulos públicos, já que existem outras alternativas de investimento, diria que você está coberto de razão. O próximo passo é pensar a estratégia de investimentos, que tenha como principal objetivo a perpetuidade das retiradas mensais e a obtenção do maior juro real possível. Com a estratégia bem ajustada e alocação de investimentos inteligente, é possível elevar o juro real líquido para patamares mais confortáveis, gerando a possibilidade de retiradas mais robustas.

Na classe de Renda Fixa, existem títulos privados, emitidos por companhias com excelente rating, que são isentos de Imposto de Renda para a pessoa física, como CRAs, CRIs. LCAs, LCIs e debêntures incentivadas. Como o foco da carteira é a obtenção de juro real, o ideal é buscar títulos de inflação, semelhantes às NTN-Bs. É possível, hoje em dia, aumentar o juro real obtido, líquido, para mais de 4% ao ano. Neste caso, é necessário mais do que nunca diversificar o emissor, por haver, mesmo que mínimo, o risco de default por parte do devedor. Prefira também melhores ratings, mesmo que as taxas sejam menores, já que a segurança de um portfólio pensado para a aposentadoria é um requisito primordial. Existem fundos de gestoras especializadas nesse tipo de papel que podem ser um importante instrumento de diversificação.

Outra estratégia de Renda Fixa é alongar os prazos. Via de regra, os títulos mais curtos pagam menos, e os mais longos pagam mais. No exercício acima, calculamos o juro real para uma NTN-B com vencimento em agosto de 2020. Quão mais curtos, mais fácil prever o juro real e menor é a rentabilidade. Os mais longos tem volatilidade muito mais acentuada, no caso de prefixados ou títulos de inflação, e cenário macroeconômico impossível de prever, já que alguns títulos públicos podem ter mais de 30 anos de duração até o seu vencimento. No entanto, por conta desse risco embutido, oferecem cupons e taxas maiores, considerando uma curva de juros normalizada (taxas aumentam ao longo da curva em função do prazo).

Os fundos imobiliários são uma alternativa importante, porque fornecem rendimento líquido de IR (aluguéis e rendimentos auferidos pelos imóveis que compõem a carteira do fundo). O risco é que haja diminuição no valor dos imóveis e dos aluguéis, uma possibilidade plausível. Fundos imobiliários são considerados como renda variável, porque o ativo está sujeito a oscilações de mercado, não existindo de fato uma taxa fixa de remuneração. Diversificação neste caso é regra, pois o mercado já mostrou que não compensa colocar todo o seu dinheiro em um único prédio de uma única cidade. O risco de problemas diminui muito na medida em que a carteira de fundos imobiliários tem diversos imóveis, de tipos e praças diferentes. Se possível busque um especialista para indicar as melhores opções.

Ações (de Bolsa de Valores) também podem ser consideradas, principalmente de empresas de primeira linha que pagam bons dividendos. Neste caso, sua retirada serão os próprios dividendos, isentos de Imposto de Renda, mas não uma taxa fixa. Os dividendos podem aumentar ou baixar ao longo do tempo, em função do grau de sucesso da empresa e/ou da estratégia de dividendos adotada. Em suma, você casa com a empresa no médio e longo prazo, e deve estar preparado para falências, fusões, aquisições, fechamento de capital, e todos os outros percalços que podem ocorrer nas estruturas das corporações, em um período que pode ser de 30, 40, ou 50 anos. O ideal é acompanhar de perto a carteira de ações, fazendo as devidas correções e/ou alocações ao longo do tempo.

Por fim, para aqueles que suportam alguma volatilidade, é indicado um portfólio diversificado, alocado em diversas classes de ativos, que tenha uma estratégia definida, com reavaliações periódicas, procurando uma rentabilidade consistente de longo prazo, que dê suporte para retiradas que se tornarão mais generosas ao longo do tempo, a partir do sucesso da estratégia adotada. Acompanhar este portfólio se tornará o seu trabalho do dia-a-dia.