O Risco Oculto do Crédito Privado

Não resta dúvida que o desenvolvimento do mercado de capitais na direção do Crédito Privado veio para ficar. Há muitas razões para isso, a começar pelo forte recuo dos Bancos na oferta de crédito para empresas durante a crise no Governo Dilma. Onde há dificuldade, o mercado trabalha para encontrar uma alternativa, que neste caso virou oportunidade. As empresas tem mais uma fonte de captação de recursos, os Bancos deixam de consumir capital e passam a ser prestadores de serviço e os clientes contam com mais alternativas de investimento em Renda Fixa.

Devemos lembrar que, para pessoas jurídicas, o custo do Crédito em Bancos é sempre mais caro. No entanto, para captar no Mercado de Capitais a empresa precisa se estruturar, se expor, contratar um serviço de distribuição e ir ao mercado de forma ampla. Dá trabalho, mas compensa. A eliminação do intermediário bancário retira o spread da operação e o retorno do título vai direto do emissor para o detentor, após as taxas de distribuição e corretagem.

Outro impulso para o Crédito Privado vem da SELIC e CDI historicamente baixos. A curva de juros também já perdeu muito prêmio nos vértices médios e longos, processo que começou com o choque de confiança do BACEN de Ilan Goldfajn, seguindo agora com o (Super) Ministério da Economia de Paulo Guedes. Sendo assim, está barato tomar crédito vinculado ao CDI ou IPCA + juros, índices mais utilizados para a emissão de títulos privados.

Atualmente sobram opções de produtos de Renda Fixa privados, sejam CDBs, CRAs, CRIs, LCAs, LCIs, Debêntures, LFs de todos os tipos ou fundos. O curioso é que todos esses produtos são apresentados como alternativas conservadoras, mesmo que os emissores eventualmente tenham um risco maior (às vezes bem maior) que o do Governo Federal, emissor da maioria dos títulos públicos disponíveis no mercado Brasileiro. No caso de fundos de investimento, o motivo é a baixa volatilidade dos fundos de Crédito Privado majoritariamente vinculados ao CDI, quase a mesma dos fundos DI mais conservadores disponíveis nas plataformas. Neste tipo de produto os títulos privados são marcados a mercado, em geral com poucas alterações na taxa (percentual do DI) ao longo do tempo. Isso não significa que a marcação é perfeita, muito pelo contrário. Marcar a mercado títulos privados é uma tarefa difícil, árdua, que demanda metodologia, acompanhamento e coragem.

Trabalhei em uma grande Gestora, justamente no setor de precificação de ativos e marcação a mercado. A maioria dos ativos e derivativos que compõem os fundos tem boa liquidez e preços divulgados no mercado, a exemplo de Títulos Públicos Federais, Ações, Opções de Ações, Futuros e Títulos Mobiliários internacionais. Basta coletar o preço divulgado e marcar ativos e derivativos nas cotas dos fundos. O problema é quando precificamos os ativos com menor liquidez, e muitos dos títulos de Renda Fixa privados estão nesse grupo. Existe uma lista de títulos privados cujo preço é divulgado pela Anbima, e isso ajuda muito. Mas, para um sem número de títulos emitidos por bancos e empresas, há pouca liquidez e pouca informação. Nesse momento entra o know-how e a fidúcia da instituição responsável pela marcação a mercado em criar metodologias, que em geral correlacionam o Rating divulgado por agências de avaliação de risco e o Rating da área de análise interna da instituição com os preços dos emissores que, em tese, tem risco semelhante. Observa-se também, com muita atenção, os negócios que possam ocorrer no mercado secundário com determinados ativos, para formar um banco de informações que possa prover sentido para a direção do preço. Não é fácil. Na maioria das vezes, existem poucos negócios e o preço de fechamento é volátil em relação ao preço da curva (par). Depende de quem quer mesmo comprar ou vender, quem mostrou primeiro a ordem, quem era a contraparte com mais força, portanto é muita coisa em jogo. Mercados ilíquidos tem essa característica, a volatilidade é maior mesmo. Por isso, também não faz sentido colocar toda a volatilidade observada nos negócios para dentro da marcação a mercado. Como resultado óbvio, os movimentos de precificação são suavizados para não impactar demasiadamente a volatilidade e, consequentemente, o índice Sharpe do fundo. Por ser difícil precificar, opta-se pelo caminho que traz menos dor de cabeça para o gestor: mexer pouco.

O próximo desafio é precificar adequadamente em termos de taxa. Na emissão primária, existe um banco de investimentos assessorando o emissor e coordenando a distribuição. O mercado traz a sua demanda e é possível entender qual é o apetite por determinado título de forma pública e compreensível. Depois que passamos ao mercado secundário, a liquidez diminui, a maioria dos detentores apenas carregam os títulos, e o acompanhamento passa a ser de cada um que detém o papel. Pode ser uma pessoa física ou jurídica, que depende de assessoria de investimentos, ou clientes institucionais (bancos, gestoras), que tem muito mais capacidade para fazer o devido acompanhamento de forma autônoma. No caso de emissões bancárias, os percentuais acima do CDI oferecidos por bancos pequenos e médios são atrativos, mas poucos clientes tem como saber quanto determinado banco paga para captar em uma mesa de tesouraria de uma grande instituição. Muitas vezes é bem mais do que o Banco em questão paga na ponta para o grande público.

O mercado de Crédito Privado é importante, necessário, e deverá continuar em processo de expansão e consolidação. Nosso país tem muito a ganhar com isso. Em breve, será difícil encontrar um portfólio de investimentos bem montado que não tenha esta classe de ativos em carteira. E na medida em que o mercado muda, nós mudamos junto. Aprendendo mais, estudando mais, sempre atentos às oportunidades que o mercado financeiro nos oferece, sem deixar de considerar os riscos envolvidos, visíveis ou não.